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Sobre

Movidos pela memória coletiva da Cabanagem e pela realidade de lutas em torno da questão criminal no contemporâneo, especificamente situados na Amazônia, buscamos com este grupo – o Grupo Cabano de Criminologia (ou simplesmente GCrim– fazer uma espécie de “adesão tardia” (como foi a adesão do Pará à independência do Brasil) ao movimento da crítica criminológica que se espalhou pelo mundo e que chegou ao Brasil a partir da segunda metade do século passado.

Diferentemente da “adesão” colonialista a que fomos historicamente submetidos, queremos não simplesmente assentir à anti-teoria que refuta os positivismos deterministas e à reprodução de discursos criminológicos forjados em contextos distantes e diversificados do “nosso” – como fizeram muitos criminólogos latino-americanos em relação à Europa e ao Estados Unidos, acabando por incorrer em verdadeiras traduttore traditore (Máximo Sozzo) no marco das traduções/importações culturais –, mas sim dar continuidade ao “destructuring impulse” (Stanley Cohen) (ou à “ruptura criminológica”, em Rosa del Olmo) que operou verdadeira revolução copernicana em criminologia (“criminological turn”), criando novas aberturas e possibilidades transdisciplinares e (auto)críticas, impulsionando, portanto, “criminological imaginations” (Jock Young) no campo da teoria problematizadora em nossa margem.

A despeito do endereçamento “criminologia cabana”, não se tem por meta realizar a reconstrução histórica da Cabanagem e, com isso, delimitar uma leitura criminológica deste movimento brasileiro. Duas são as intenções com o resgate da expressão: 1º.) dar ênfase às raízes que são próprias de um contexto que teve por excelência o espírito de subversão, protesto contestação da ordem, algo inegociável para o saber criminológico instrumentalizado numa práxis social; e 2º.) destacar que esta experiência histórica, própria do Pará (e da Amazônia), aqui ocorreu, com destaque potencializado frente aos demais movimentos de todo o Brasil, sendo esta remição alusiva à também gana de se mostrar que no século XXI o norte brasileiro também fomenta reflexões críticas sobre a questão criminal.

Queremos, portanto, propor indagações, imaginações e expressões sobre a questão criminal como descendentes de cabanos, numa região característica por excelência ao que consideramos ainda na atual conjuntura a “margem da margem”, quando se observa seu status quo geopolítico/econômico e de produção científico-acadêmica em relação ao centro-sul brasileiro.

Inspirada na comunidade de atores que veiculou e ainda veicula as forma de saber criminológico (v.g. National Deviance Conference, Grupo Europeu para Estudos do Delito e do Controle Social, ALPEC, Grupo Latino-Americano de Criminologia Crítica, Grupo de Bologna, IBCCrim, ICC, iTEC, ICPC, ICA, Nu-Sol, Grupo “Jangada Criminológica”, Grupo Asa Branca, Grupo Candango de Criminologia etc.), a  estrutura anti-hierárquica, anti-hegemônica e anti-verticalizante deste coletivo independente objetiva propagar discursos sediciosos desde a “margem da margem”, o que não implica produzir divisões (na forma de uma reação violenta contra nossas vozes, como aconteceu com o massacre aos cabanos sob a alegação de que buscavam autonomia em relação ao resto do país), nem tão-pouco monopolizar o discurso.

A ideia é tornar insustentável e não estruturante um “monastério dos sábios” (Warat) responsável por encarcerar a riqueza da heterogeneidade e pluralidade de discursos que caminham em torno deste “espaço polivalente” (Enrique Marí) (não à toa não adotamos uma política criminal alternativa específica) e, assim como na convocatória de Vera Andrade, participar da construção do projeto de uma grande rede dialogal latino-americana e brasileira, na qual inexistam “complexos de inferioridade” e se constituam ferramentas para um criticismo que busca sua “latinidade/brasilidade criminológica”.

Por tudo, em atenção às possíveis ferramentas de atuação (v.g. ciclos contínuos de pesquisa, produção científica de artigos e de um journal, traduções, disponibilização de acervo bibliográfico, organização de eventos e minicursos, entrevistas, vídeos etc.), os investigadores (“jovens criminólogos críticos”) membros deste grupo se propõem, na medida de suas possibilidades, a buscar a democratização do estudo e da pesquisa das criminologias (críticas) em Belém, no Estado do Pará, contando com a participação de todos aqueles que estiverem interessados em de alguma forma colaborar, buscando interseções para muito além da circunscrição regional em terras latino-americanas e além-mar.

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